vaidade

No final de um livro encantador, “O menino no espelho”, Fernando Sabino resume o segredo de uma felicidade constante: pense nos outros.

Muito mais do que coisa de romance, pensar nos outros é um mantra necessário ao trabalho com comunicação. Como agência, pensamos nos outros o tempo todo. Os outros são os consumidores. O público alvo. Os stakeholders. A concorrência. O nosso cliente. Os outros, sempre eles.

E, ainda assim, estamos carecas de ver (e, sejamos honestos, às vezes ter) surtos de uma certa vaidade profissional. Uma vaidade que não se revela em futilidades, mas em geral no deslize de não considerar justamente os outros.

Em artigo recente na M&M, André Kassu comenta uma conversa com o arquiteto Isay Weinfeld. No meio do assunto, a relação de confiança com o cliente e uma citação interessante: “Às vezes se esquece que a obra é para quem pediu, não para você. Eu não projeto para mim, projeto para o outro.”.

Sábias palavras.

Criamos campanhas, conceitos, estratégias, ações, conteúdos para o outros. Para o outro que está na outra ponta do diálogo e a serviço do outro que é nosso cliente. É claro que ele, o cliente, contratou a visão de um especialista (no caso nós). Mas isso não tem nada a ver com dar espaço para o ego institucional da agência, nem para o ego pessoal de alguém.

Esse tipo de conduta mina a relação entre cliente e agência que discutimos aqui e cria um nível perigoso de desconfiança que torna clientes reticentes e inseguros. Talvez isso não afete tanto as grandes contas, mas no universo dos clientes de médio porte a coisa é mais perceptível. O momento é de critério nos investimentos, e entre o silêncio e o risco de uma relação desgastante, temos visto que marcas têm sido cautelosas em excesso na contratação de agências.

Na nossa própria experiência aqui na Bolt não é incomum ouvir histórias de clientes chateados por terem em algum momento se sentido desprestigiados por suas agências. Não falo aqui de tempo dedicado, mas sim da forma de conduzir as coisas. Bom, é triste e pouco inteligente não levar em consideração a vivência do cliente com seu próprio negócio, sua visão de mercado e sua opinião sobre temas ardentes (como concorrência ou tendências que têm a ver com ele). Especialista em comunicação ou não, bem articulada ou não, a visão do cliente sobre seu próprio universo é fundamental – não porque ele está pagando a conta (carteirada não está com nada), mas porque uma visão “de dentro” é fundamental para construir um panorama completo e deve ser levada em conta, ainda que seja como algo a ser trabalhado ou mesmo desconstruído.

A vaidade às vezes atropela esse diálogo (já falamos do diálogo por aqui), e cria uma dinâmica impositiva que pode ficar muito, muito complicada de levar. O esforço nem sempre é pequeno para compreender e contextualizar, numa criação ou numa estratégia, o ponto de vista de um cliente sobre si mesmo – mas é essencial. Indispensável.

Sob o risco de se tornarem no mínimo chatos e no quem sabe repulsivos, agências e profissionais donos da verdade podem até estar com toda a razão em algumas oportunidades, mas são difíceis de engolir. No que isso dá? Clientes que tomam decisões de comunicação sem muita seguranca ou sob uma pressão desnecessária, ou que ainda chegam a um nível de atrito tão intenso com suas (ex-)agências que o rompimento é traumático.

Construir junto, praticar o desapego de visões unilaterais, abolir verdades absolutas – um exercício urgente, diário, necessário e fundamental para manter relações sadias e bacanas, na vida e entre agências e clientes.

“Discutindo a relação” é uma série do Thunderblog sobre alguns tópicos do relacionamento entre as agências e seus clientes.

Link para a página de case da Bolt Brasil

Cliente e agência: discutindo a relação [Vaidade]

Categoria: Mercado
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